Falar de relações de poder na Igreja ainda causa desconforto. Michel Foucault nos ajuda a perceber que o poder não está apenas “no alto”: ele circula nas relações, nos discursos, no controle das informações, nos critérios de participação e na definição de quem pode falar e ser ouvido.
Paulo Freire acrescenta que, sem consciência crítica, podemos naturalizar relações desiguais como se fossem simplesmente “o jeito das coisas”. Participar não é apenas executar decisões tomadas por outros; diálogo verdadeiro pressupõe sujeitos capazes de dizer sua palavra e participar da transformação da realidade.
O Evangelho oferece um critério decisivo. Jesus não elimina a autoridade, mas a redefine: “Entre vós não deverá ser assim” (Mt 20,26). Contra a dominação, propõe o serviço; diante da disputa por lugares, lava os pés dos discípulos. A autoridade cristã deveria fazer crescer pessoas livres e responsáveis, não dependentes e silenciosas.
Por isso, sinodalidade não pode significar apenas reuniões e consultas. Escutar alguém implica admitir que sua palavra possa também influenciar decisões.
Algumas perguntas, muitas vezes tratadas como tabu, precisam ser pautadas:
Quem realmente decide em nossas comunidades?
Os conselhos discernem ou apenas legitimam decisões já tomadas?
Há renovação real das lideranças?
Como tratamos quem discorda ou questiona?
“Obediência”, “humildade” e “comunhão” podem ser usadas para silenciar?
Por que algumas pessoas se afastam e quase nunca perguntamos o que aconteceu?
Uma Igreja sinodal precisa também aprender a examinar e converter suas próprias relações de poder.